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Revista CompanySul - Ano 03 - Edição 24 - Março de 2009

O coração verde de Interlagos

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Quando o Engenheiro britânico Louis Romero Sanson projetou a “Cidade Satélite de Interlagos”, a idéia veio acompanhada de construir uma área verde dotada de infraestrutura, visando o equilíbrio ambiental do espaço urbano. Assim surgiu o Viveiro Operacional de Interlagos, atualmente denominado Parque Jacques Cousteau, que é carinhosamente chamado pela população de Laguinho.

Criado em 1927 com uma área de 67.326 m2 localizado entre as Ruas Catanumi, Norman Prochet, Raul Tabajara e Av. Louis Romero Sanson, a área apresenta um remanescente de Mata Atlântica, nascentes, além de uma rica biodiversidade. Durante muitos anos o local foi utilizado unicamente como viveiro de mudas ornamentais e frutíferas pela atual Subprefeitura Capela do Socorro.

O lago ocupa cerca de três quartos da área total do Parque e abriga jacarés e espécies nativas de peixes como lambari, cascudo e guarú. Em quadras e canteiros especialmente construídos, foram cultivadas plantas ornamentais anuais e perenes de forração e arbustivas, tais como: Iris, onze-horas, lírio, gladíolo, papoula, bico-de-papagaio, entre outras, num total de quarenta espécies, com média mensal de produção de 7.700 mudas até o ano de 1998. Várias árvores frutíferas também foram espalhadas pelo local.

“O Laguinho não está ai gratuitamente. No projeto criado por Sanson toda a parte de drenagem natural do bairro afluía para sua parte mais baixa, no caso para o lago. Junto com esta característica de drenagem de superfície, no seu interior têm várias nascentes, por ser este realmente o ponto mais baixo da região. Na época em que não havia toda a rede de drenagem que temos nas ruas, ele servia como uma espécie de extravasor de águas pluviais, uma espécie de piscininha que fazia a contenção de água da chuva em excesso na superfície. Essa característica é tão aparente, que quando as autoridades projetaram as redes das ruas que vinham sendo asfaltadas, simplesmente descarregam no Laguinho essa água que era recolhida das vias públicas, e o Laguinho suportou, então ele tem uma função técnica muito importante. Ele é parte integrante do loteamento, não é uma área que simplesmente foi colocada ali, como sendo uma área necessária para preenchimento de projeto no que diz respeito a áreas verdes. É uma peça fundamental, na função técnica com a natureza para tratar do seu equilíbrio para descarregamento de águas pluviais”, explica Mário Luiz Spinicci, Vice Presidente da SBI – Sociedade Benfeitores de Interlagos.

Ao logo dos anos o Viveiro foi se tornado uma unidade que precisava ser preservada, pois vinha sofrendo inúmeras agressões. A área inicialmente utilizada para lazer pelos moradores começou a ser cobiçada por particulares e pelo poder público. O primeiro projeto surgiu na década de 60 e pretendia criar a “Gurilândia Paulista”, uma atração turística com pedalinhos no lago e áreas de piquenique. Na década de 70 passou a ser utilizado para fins não recreativos, pessoas vinham lavar roupas e tomar banho no lago.

Com a Praça da República em reformas a municipalidade resolveu abrigar no Viveiro os gansos da Praça. Como esses gansos apareciam com marcas de mordidas nas patas, foram introduzidos quatro jacarés no lago, como predadores naturais para as piranhas, em pouco tempo a situação se normalizou e os jacarés viraram uma atração.

Em 1975, tentaram criar um hospital no local. Na década seguinte a Prefeitura tentou implantar uma escola de jardinagem e um terminal de ônibus, mas por serem absurdos nenhum desses projetos foram colocados em prática. Porém, em 1997, foi autorizado o funcionamento de uma unidade de referência em saúde mental para portadores de deficiências e necessidade especiais, o CECCO – Centro de Convivência e Cooperativa, que a partir de 2001 começou a receber pacientes. Durante a construção do corredor de ônibus na Avenida Robert Kennedy, em 2002, a Prefeitura instalou os trabalhadores dentro do Viveiro, e os funcionários da obra desmataram e aterraram uma área para fazer um campo e futebol. Foi instaurado um inquérito e a municipalidade teve que fazer o plantio de 1.500 árvores nativas na área degradada.

Uma outra ameaça ao local foi a especulação imobiliária. Muitas pessoas apareceram nos últimos anos de posse de procurações dizendo-se donos do Laguinho com o interesse de transformar o local em condomínio horizontal.

Para frear todas essas agressões, ao longo dos anos duas entidades, a SBI – Sociedade Benfeitores de Interlagos, e a ONG Fiscais da Natureza, se empenharam e buscaram criar mecanismos para a proteção e recuperação ambiental da sua fauna, flora e de seus valores paisagísticos.

Segundo Mário, com o asfalto da região e as águas das galerias pluviais sendo jogadas diretamente no lago, provocouse uma grande erosão. Por isso é preciso recompor suas margens, colocar dispositivos para quebrar a energia da água e purificá-la, pois ela vem carregada de poluentes, é preciso fazer um tratamento nela. “Se você agredi-lo mais do que está sendo agredido, ou ter muita demora no prazo deste atendimento, vamos ter uma área degradada como tantas outras existentes. Neste ponto posso citar o lago do Parque Ibirapuera que não tem vida. O Laguinho conta muitas particularidades e vantagens, pois têm suas próprias nascentes. Tem todo um repertório de qualidades que não podem ser simplesmente desprezadas e só um estudo ambiental meticuloso do local, pode mostrar esse potencial”.

O Parque Jacques Cousteau, localiza-se na margem direita da Represa Guarapiranga, a área apresenta grande importância para a região de manancial, pois a presença de áreas verdes em bacias hidrográficas geralmente resulta em um nível mais elevado de qualidade da água por simplesmente não poluir ou pela regulação da erosão do solo que proporcionam, diminuindo a carga de sedimentos e posterior assoreamento.

Segundo estudos realizados, em 2004, pela Esalq Jr. Florestal , o levantamento florístico do local apontou 73 espécies e 34 famílias, sendo alguns exemplares muitos importantes por serem raros, ou se encontrarem em processo de extinção como Pau Brasil, Palmito Juçara e Pau Jacaré.

O estudo da Fauna apontou grande diversidade de espécies silvestres moradoras e visitantes, entre peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos, além de uma infinidade de invertebrados, principalmente insetos. Iguanas, saguis, tartarugas, irerês, garças, gambás, entre outras espécies que também habitam o Parque.

A Esalq concluiu em seu levantamento que o Laguinho presta importantes serviços ambientais, dentre eles o fato de abrigar um remanescente de floresta natural em meio a uma zona urbana residencial e, por conseqüência, servir como refugio, área de reprodução, alimentação e rota migratória da avifauna. O levantamento ornitológico realizado pelo biólogo Luis Francisco Sanfilippo, em 2002, e por Fábio Schunk, em 2006, identificaram mais de 100 espécies de aves, entre moradoras e visitantes (migratórias). Segundo este estudo, a área é abrigo, local de alimentação e nidificação. É também considerado um importante corredor migratório.

“Toda a região da Guarapiranga tem 250 espécies de aves, sendo que 86 delas estão na região do Laguinho. Com sua destruição, essas aves tendem a desaparecer”, completa Fábio.

Através da Lei 12.662, 19 de maio de 1998, de autoria do Vereador Antônio Goulart, o Viveiro Operacional de Interlagos passa a se chamar Comandante Jacques Cousteau. Além da nova denominação do Viveiro, no ano seguinte, a Lei 12.784, de 06 de janeiro de 1999, também de autoria do Vereador Goulart, que dispõe sobre o acesso do público às dependências dos viveiros da Prefeitura do Município de São Paulo, ajudou na preservação do Laguinho, já que de acordo com a Lei, a visitação pública não seja aplicada aos viveiros municipais localizados em zona de uso estritamente residencial - Z1, como é o caso do Laguinho, por isso a contribuição para sua preservação.

Porém, a tranquilidade de saber que o Viveiro estava protegido acabou logo, pois em 2007, através do decreto 48.758 de 26 de setembro, a Prefeitura transformou a área em Parque Municipal que poderá ser aberta ao público a qualquer momento, sem nenhum estudo de impacto ambiental e contrariando todas a Leis, já que o local é uma área de Preservação Permanente (APP) que faz parte do bairro de Interlagos, tombado pelo Patrimônio Histórico.

Áreas verdes em grandes centros urbanos trazem amplos benefícios às condições ambientais da cidade e àqualidade de vida da população, como purificação do ar e água, mitigação dasenchentes e secas, geração e renovaçãodo solo e de sua fertilidade, polinização, dispersão de sementes e translocação denutrientes, manutenção da biodiversidade, estabilização parcial do clima, moderação de temperaturas extremadas e da forçados ventos. Por isso, por causa de suas características ambientais como cobertura vegetal, solo e recursos hídricos, segundo a Esalq , o Laguinho tem papel fundamental na manutenção do clima não apenas em seu entorno, mas do bairro de Interlagosem geral.

Fontes:

Levantamento histórico-ecológico e caracterização do Viveiro Comandante Jacques Cousteau, realizado por Beatriz Castro Maroni como trabalho de conclusão de curso do Centro Universitário SENAC.
Levantamento realizado pela SBI – Sociedade Benfeitores de Interlagos.

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