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Revista CompanySul - Ano 03 - Edição 31 - Março de 2010

O caminho da música

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Incrível imaginar como um assunto pode ter tantos desdobramentos. Quando recebi o tema “Fanfarras” para escrever mais uma capa para a Revista CompanySul, logo pensei: nossa por onde começar? Afinal o que é uma fanfarra? Na minha cabeça logo vieram as bandinhas dos desfiles cívicos e os concursos de fanfarras que acontecem geralmente em cidades do interior.

Grande engano. O tema “Fanfarra” é amplo e capaz de mudar a realidade de muitos jovens de comunidades carentes. Fanfarra (do francês fanfare), conforme define o site da Funarte – Fundação Nacional de Artes, é um tipo de banda musical, inicialmente composto por instrumentos de sopro de metal, ao qual foram incorporados outros com estilo marcial e para exibição pública. Fanfarra era, como antigamente chamavam, o toque de trompas e clarins nas caçadas, sendo depois estendido à designação das bandas marciais que acompanhavam os cortejos cívicos ou regimentos de cavalaria. Nas óperas, fanfarra designa o trecho executado em cena por instrumentos de metal.

“Hoje, as grandes bandas de fanfarras fogem deste estigma tradicional. Antigamente, as fanfarras e as bandas eram vinculadas às questões militares por conta do regime militar do Brasil, mas no começo dos anos 80 aconteceu uma mudança do perfil e as fanfarras deixaram de ser apenas militares para se tornarem grupos musicais, voltados a ensinar música e a se preocupar fundamentalmente com a inclusão social do aluno. Foi quando as escolas abraçaram essa ideia de inclusão do ensino da música, da importância que a música tem no desenvolvimento cultural, social e ético do aluno”, explica o Maestro Diogo da Costa Ferreira Coordenador Cultural e da Fanfarra do Colégio Albert Einstein.

Segundo a Funarte, as primeiras bandas de música surgiram no século XVIII, no Rio de Janeiro, e eram formadas por barbeiros - escravos em sua maioria -, que tocavam fandangos, dobrados e quadrilhas, em festas religiosas e profanas. Em 1831, foram criadas as bandas de música da Guarda Nacional e esta arte se espalhou pelo país. No século XX, as bandas de música se transformam em uma das mais populares manifestações da cultura nacional: onde havia um coreto, existia uma bandinha, orgulho da cidade.

Nas bandas, formaram-se músicos profissionais e amadores, eruditos e populares, como Patápio Silva, Anacleto de Medeiros e Altamiro Carrilho, entre muitos outros. As bandas também foram um centro gerador de novos gêneros musicais e de um vasto repertório de chorinhos, marchas e dobrados. Com o desenvolvimento da cultura de massa, porém, esta rica e alegre tradição brasileira começou a correr sério risco de extinção.

Ainda hoje existem muitos colégios, tanto particulares como públicos, que levam as fanfarras bastante a sério e por meio delas muitos jovens têm trilhado o caminho do sucesso ao invés de seguir pelo caminho errado das drogas ou da violência.

“A música é um instrumento transformador na vida de um jovem, porque ele precisa ter raciocínio rápido. Ele aprende a ler música, ele não toca apenas por ouvir. Tem toda a parte teórica que a música exige, então existe uma cobrança grande com relação a horários, e a própria competição entre as fanfarras cria muita responsabilidade. Nos meus 22 anos de profissão, eu tive vários exemplos de jovens que estavam indo para o caminho das drogas e hoje vivem da música. Na porta da escola, a droga está presente. Muitos jovens eu consegui salvar, graças a Deus, mas quem não optou pelo caminho da música, ouvimos falar que infelizmente já morreu. Agora, todos que passaram pela banda de fanfarra da escola não tiveram problemas com drogas ou seguiram o caminho do crime”, ressalta o Maestro Edson Rodrigues, conhecido como Moita entre os alunos. Além de ensinar a arte da música na Escola Municipal João de Deus Cardoso de Mello, Moita é Presidente da Federação Bandas e Fanfarras de São Paulo.

A opinião de que a fanfarra contribui muito para a formação do aluno é compartilhada pelo Maestro Diogo. “A música ajuda no desenvolvimento, o estudo da teoria musical contribui para o raciocínio rápido do aluno e um sentido de atenção e percepção do todo. A fanfarra em si tem essas questões de disciplina, de sensibilidade, de dedicação ao estudo, e principalmente de convívio entre os alunos. Eu tenho alunos de 8 a 24 anos, e essa mescla é muito importante, pois os maiores servem como exemplo para os mais jovens”.

As competições são o grande incentivo para que os jovens se dediquem cada vez mais à música. E são muitos os campeonatos e festivais de bandas e fanfarras que acontecem em todo o Brasil. Em São Paulo, o Festival de Bandas e Fanfarras, que está em sua 8ª edição, é promovido pela Prefeitura para estimular o aprendizado musical nas escolas, promover o desenvolvimento das técnicas musicais e a competição sadia, possibilitando o aprimoramento de técnicas coreográficas e a troca de experiências entre as bandas e fanfarras das diversas regiões da cidade.

A primeira edição do Festival de Bandas e Fanfarras da Cidade de São Paulo ocorreu em 2002. Atualmente, 175 escolas municipais possuem bandas e fanfarras, com a participação de 86 professores e 17.500 alunos. A música está presente na rede desde 1969, quando foi criado um setor musical para divulgar a música por intermédio de corais, fanfarras e bandas rítmicas nas escolas municipais.

“Depois da implantação do Festival na cidade de São Paulo, a cada ano as Diretorias Regionais de Educação tem feito cada vez mais investimentos em instrumentos e uniformes para equipar as bandas e fanfarras da rede municipal de educação. Além da música, as crianças aprendem a trabalhar em grupo, terem respeito à hierarquia, disciplina, e a se tornarem cidadãos mais completos. Este ano, participam do Festival 230 escolas, sendo 160 da rede municipal e o restante são escolas particulares e estaduais”, ressalta o Maestro Marcelo Bonvenuto, Coordenador do Departamento de Bandas e Fanfarras da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo.

A Escola Municipal João de Deus é uma colecionadora de títulos em campeonatos e festivais de bandas e fanfarras. Segundo o Maestro Moita que já perdeu a conta de quantos títulos seus alunos ganharam, são aproximadamente 180 troféus. O que propiciou todas essas conquistas foram vários anos de muita dedicação e a luta do próprio Maestro para que o projeto fosse estendido também à comunidade e não apenas aos alunos regularmente matriculados na escola. “Ouve certa resistência, mas eu disse que havia uma Lei que me amparava para aceitar jovens da comunidade na fanfarra e a Prefeitura concordou, porque é complicado você ensinar o jovem enquanto ele está na escola e quando ele aprende alguma coisa, toma gosto pela música acaba o curso e ele é obrigado a parar de tocar. Aí você tem que começar tudo de novo”.

Atualmente, o Maestro Moita apenas coordena a fanfarra do João de Deus. “Eu estou deixando nas mãos de um ex-aluno que começou tocando aqui na fanfarra e hoje está regendo. Em breve, eu vou me aposentar, mas vou deixar a banda em boas mãos”.

Trilhar carreira na música, este foi o objetivo de Roberto Vigiani Júnior que, aos 10 anos, teve o primeiro contato com a fanfarra do Maestro Moita e hoje, aos 32 a está regendo. “Minha mãe tinha um bar em frente da escola e eu ficava escutando os ensaios, e resolvi entrar para a fanfarra. Participei de vários campeonatos, nunca fiz nenhum curso, sempre fui autodidata. Toquei na banda do Colégio Paralelo e comecei como Maestro no Alberto Salotti, conquistei vários títulos, fiz um trabalho bem consistente lá. Depois montei minha banda, mas me casei e parei. Fiquei dois anos parado e acabei voltando para o Salotti. Estava lá há uns seis meses quando surgiu a oportunidade de começar este trabalho aqui no João de Deus. Não só eu, mas amigos meus que começaram aqui se deram muito bem, não só na música mas em outras áreas, porque as pessoas acabam entendendo que para se darem bem precisam ralar muito, as coisas não caem no colo se você não correr atrás, essa foi a grande lição de tudo isso”.

Mesmo com alguns incentivos da Prefeitura e do Estado não é fácil tocar uma banda de fanfarra dentro dos colégios municipais e estaduais de São Paulo, pois os Maestros que regem as bandas muitas vezes precisam ser remunerados pelas APMs – Associações de Pais e Mestres, e comprar por conta própria os equipamentos. “Alguns equipamentos que temos vieram do Estado, que mandou um kit de fanfarra para as escolas, mas eles simplesmente mandaram, sem se preocupar com quem faria o trabalho. Tem escola que tem o kit, mas não tem Maestro. Em três anos à frente da fanfarra na Escola Estadual Vicente Leporace, tirando o kit que recebemos, tudo o que temos de equipamento é meu, pois pedindo ajuda para os comerciantes locais. É um trabalho árduo”, relata o Maestro Milton Mendes.

Milton também faz da música um objeto interdisciplinar de ensino. “Tinha um jovem de 15 anos na minha turma que eu precisava tirá-lo de dentro do banheiro porque estava sempre usando drogas, mas hoje ele saiu dessa vida e me ajuda com a música. Meus alunos têm que ter boas notas, têm que ter disciplina. Temos uma reunião mensal com os pais para falar dos alunos. A intenção da nossa fanfarra é que os alunos não sejam somente bons na música, mas com a família, os amigos e com os professores. E a música tem esse poder”.

Sim, a música tem esse poder. Um poder que o jovem Lucas de Sousa Nunes, 17 anos, estudante do 2º Colegial da Escola Estadual Luís Magalhães de Araújo, pretende aproveitar ao máximo para atingir seu objetivo, que é tocar na OSESP - Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, uma instituição hoje reconhecida nacional e internacionalmente pela qualidade e excelência.E se depender do seu talento para a música e de sua vontade de aprender cada vez mais, podem guardar esse nome, pois provavelmente num futuro próximo ele poderá alcançar seu objetivo com êxito, uma vez que já deu o primeiro passo neste sentido ao conquistar uma vaga na disputadíssima Escola Municipal de Música de São Paulo.

“Fiz os testes no ano passado para entrar na Escola Municipal de Música e passei. Esperei uma vaga, até que ela surgiu. Comecei a fazer aulas e fui chamado para tocar na Orquestra do Municipal. A Orquestra é bastante cheia. Ensaiamos na Escola Municipal de Música e tocamos em vários lugares como Centro Cultural, Clube Hebraica, entre outros. A escola é coordenada pelo Teatro Municipal e todas as atividades são do Teatro Municipal, então as chances de eu me apresentar no Teatro Municipal são bem grandes e isso seria a conquista de um sonho”.

Lucas começou numa fanfarra simples no Colégio Mario Moura com 11 anos. Se interessou pela música e começou a se dedicar ainda mais entrando para a orquestra do projeto Guri do M´Boi Mirim. Atualmente, Lucas toca no Vicente Leporace e na fanfarra do João de Deus. “Fui para o João de Deus porque eles têm uma banda boa, com uma qualidade impressionante”.

Jovem e determinado mesmo com poucos recursos e sem o apoio integral da família, Lucas segue o seu caminho aprimorando seu aprendizado cada vez mais para se tornar um grande trompetista. “Minha mãe às vezes não gosta porque fala que eu estou exagerando, ela preferia que eu estivesse fazendo outra coisa, ela não fala exatamente o que, mas diz que ser músico não dá certo”. Mas seguro do que quer, Lucas emenda: “O fato de eu ter conquistado a vaga na Escola Municipal de Música com certeza me deu mais energia para seguir adiante. O Professor que eu tenho é excelente, o Carlos Sulpício é um dos maiores trompetistas brasileiros, estudou com Roger Voisin, viajou para a França e Estados Unidos e integrou grandes orquestras”.

Sobre os planos para o futuro Lucas ressalta novamente o seu desejo de ingressar numa grande orquestra e diz o que espera do Brasil. “Para o meu futuro eu espero entrar numa orquestra profissional como a OSESP e para o Brasil eu sonho que as pessoas prezem um pouco mais a música”, finaliza.

Fonte: www.funarte.gov.br

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